Havia na Lapa carioca um tipo bem interessante. Vesúvia morava à Rua 3, num sobrado que tomou por invasão, e era um travesti bem do mal feito. Os peitos ainda eram postiços, bem como as unhas e os cabelos que, se crescidos, assemelhavam-se a uma esponja de aço. Ganhava a vida se prostituindo, e com o dinheiro suado do trabalho, comprou uma peruca loura que quando associada ao seu rosto, resultava mais que bizarra.
Acreditava tão piamente ser uma mulher de verdade, que a tudo que competia ser de caráter biológica e psicologicamente feminino, julgava-se no direito de tomar parte. Sendo assim, até menstruava.
Foi então numa manhã ensolarada que ela acordou aos gritos, antes de poder recuperar-se da longa noite de serviços prestados.
- Vou ter um filho! Vou ser mãe! – afagando o ventre.
Jurava de pés juntos que um ser divino lhe veio ao sono e lhe garantiu que teria um filho. O primeiro rebento de três nasceria dez meses após o ocorrido e o pai seria um baita mulato fluminense de Volta Redonda condutor de circulares na capital, do tipo parrudo, peludo, recuperado; gandula do Puxa Firme F.C. em tempos idos.
Passou a sentir-se na obrigação de portar-se como uma mãe responsável e mudou radicalmente. Comprou uma peruca channel preta, que acreditava dar-lhe um ar mais sóbrio. Os saltos diminuíram e o contrário aconteceu com os shorts e afins, que cresceram a altura do joelho, e de lá, nenhum dedo mais acima. Já não ingeria álcool nem fumava.
Revelado o futuro pai de seus filhos e sua profissão, a “querida”, como os mais chegados a chamavam, só andava de ônibus! Não podia ver uma condução que logo dava o sinal e nela montava. Era a caça ao marido parrudo!
Ao amanhecer de uma quinta-feira, “querida” saía toda pimposa de seu apê a garantir o estoque de fraldas, quando virou o pé e rolou escadaria principal abaixo, se estabacando no chão após dezessete degraus muito bem descidos. A peruca havia ficado presa no corrimão, os saltos voaram feito papel, um dos peitos encontrou o chão antes de Vesúvia e o outro foi parar na bacia de roupas sujas de dona Maria.
Todos que moravam nos quartos do prédio ocupado correram a acudir a acidentada que jazia inconsciente no que seria o piso de um saguão de um velho hotel.
Uma mona muito da histérica saiu à rua gritando no meio do trânsito pra que alguém ajudasse a pobre mãe gestante.
Uma van lotada de passageiros que rumava o Jardim Oceânico parou pra prestar auxílio. A motorista do veículo não tardou em carregar e alojar Vesúvia num dos bancos pra socorrê-la.
Os restos da travesti ficaram na escada; na cama da enfermaria repousava um homem. Ao que a condutora que o socorreu lhe disse:
- Tão parrudo, moreno... Esse peito cabeludo! Se te dissesse que gamei assim que te vi, ia ficar triste, amorzinho?
- É... nem sempre é do nosso jeito. – resmungou sem que a apaixonada entendesse, e prosseguiu em alto e bom som após respirar conformado. – Até sonhei com você! Prazer, Everaldo.
Everaldo recordou então do sonho que tivera.
Tratava-se de Dercy Gonçalves visitando-o em casa e dizendo surpreendentemente bem comportada as seguintes palavras: “Abre bem o olho, rapaz! Uma mulher muito da boazuda, motorista de van linha Jardim Oceânico x Barra, vai gamar bonito. Ela não resiste a um moreno peludo e parrudo assim igual você. Só não me faz a pachorra de voltar a puxar um daqueles, ela odeia! Ah, a motorista vai te dar três filhos maravilhosos. Tudo isso assim que você se desarmar e dar ouvidos ao que seu coração lhe diz! Beijo, que tenho que ir correndo e contar pra Dilma que o Lula só morre depois dos 80.”
Thiago Oliveira.
FANTÁSTICO Thiago!
ResponderExcluirGostei demais!
Marcelo.