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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Renda-se

    Não conseguia se lembrar de quando foi a ultima vez em que a vida havia sido diferente. Sujeitos como ele viviam como criaturas noturnas e o amanhecer era apenas o fim do expediente marginal. Todas as noites o garçom e o balcão o acolhiam, muitas histórias eram contadas e inventadas por ele ou por derradeiros beberrões como ele.
    Como gostava de histórias, principalmente de escrevê-las. Escrever era um prazer, o seu gozo. Uma fuga. A escrita fazia com que caísse no esquecimento de si mesmo. Escrever sobre outras pessoas era confortável.
    Em uma noite sem novidade, como tantas outras, chegou, acomodou-se no balcão e viu um detalhe novo na decoração da parede atrás do garçom. Um comprido espelho, estendendo-se por toda parede.
    - Diabos, Fred! Pra que um espelho? Bêbados não enxergam.
  - Ajuda a refletir a luz. Como você mesmo disse, bêbados não enxergam... e dão muito trabalho.
    Aquilo realmente perturbou-o. Havia décadas que não dava atenção ao seu reflexo. Estava velho, surrado e a barba já não causava mais incômodo. As surras e a bebida fizeram com que o tempo e sua passagem perdessem a importância.
    Voltou mais cedo pra casa naquela noite, aquilo foi demais para um velho como ele. Logo decidiu: “Nunca mais volto naquele bar. Um bar não precisa de espelhos”. Desse dia em diante suas personagens seriam pessoas jovens. Decidiu. Jovens e bêbadas. 

Filipe Lemos.

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