Horrível. Cruel. Aterrorizante. Era assim que Clara descrevia o monstro que vivia em seu armário, o pior de todos de que já se teve noticia. E é assim que esta história começa.
Clara não era exatamente a figura de uma diva, estrela de cinema, uma vilã ou um ser merecedor de recordações, que seja... Pequena menina calada, sem emoções ou percepções de presente e futuro, era simplesmente ela pela única condição de existir. O que a traz à tona e nos faz perder alguns minutos com sua vida insípida neste momento foi um fato ocorrido há não muito tempo, com uma não heroína, em um não palacete; talvez esta também seja, de fato, uma não história.
Uma porta entreaberta: foi o que bastou para desencadear em nossa personagem a mais terrível das reações. Nossos olhos são traiçoeiros, sempre trapaceiam nos mostrando algo indesejável de se ver. E Ela também viu... E sentiu. Aquele armário abrigava seu pior pesadelo, algo inexplicavelmente ruim, com razão e nenhum motivo para ser. Seu corpo paralisado, trêmulo, preso na armadilha do paradoxo real do qual somos todos migrantes; sua alma gritava calada, implorando por um momento de nada, nada além de si dentro de si própria. Respirar havia se tornado tarefa hercúlea.
Clara. O armário. O seu medo.
Durante aqueles intermináveis segundos, tudo saiu do lugar, nada mais era confortável e possivelmente não voltaria a ser. Parada à frente daquela porta, nada mais importava, o desejo de normalidade batia a sua porta para entrar; e entrou. Criou coragem, tomou em suas fracas mãos uma maçaneta e começou a empurrá-la. Porém, antes de trancafiá–lo pela eternidade, espiou pelo pequeno vão anguloso que a porta fazia e encarou seu monstro nos olhos. Era emoldurado com madeira antiga e face lisa. A única direção para a qual aqueles inexpressíveis olhos de Clara apontavam era o centro da figura, um reflexo adulto, magro, com olhar suplicante de dor e sofrimento em um espelho colossalmente grande. Uma porta foi fechada. A vida agora estava mais Clara.
E é assim que esta história também não termina, com tudo diferentemente igual ao que era antes. Horrível. Cruel. Aterrorizante. Era assim que Clara descrevia o monstro que vivia em seu armário, o pior de todos de que já se teve notícia.
Ana Esther.
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