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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Percepção Aguçada

    Ele quer brigar! Sim, ele quer. Olhos vermelhos para feras indomáveis. Ele me chama.
    Um copo de batida, para quem pede leve, um copo de whisky para o refinado e o meu, oras, o meu é de água ardente! Ele do outro lado do galpão, bate o copo uma, duas, três vezes. Ele me encara. Vamos! Ele se levanta e vai embora, pisando com força. Me levanto e sigo atrás dele. Corro sem correr. Ando querendo correr. Ele se distribui em 3 em plena noite. Eu não me divido. Me sinto puxado de um lado para o outro. Querem me derrubar. Me empurram e puxam com força e então tropeço no fio da calçada gelada. Eles são muitos e eu sou um em uma escura rua vazia. Nenhum movimento, mas eles continuam querendo me derrubar. O homem se volta até mim e ameaça: “Você me seguiu?!”
    Formigamento sinto surgir de minhas entradas. Tremo. Roça-me o abdômen e respondo às coceiras com uma intensa gargalhada, sonora. Ele calcula a distância entre nós. Não há muito espaço. Covarde, tenta correr ou talvez busca uma nova tática para me matar. Suas pernas queriam brigar comigo, por isso logo se mobilizam. Ele treme. Deve ser sua ira. Ele sua, deve ser por raiva. Pede “Por favor, não me mate!”. Não, ele quer morrer. Ele me persegue, eu o persigo. Não temo ninguém. Estico o braço, estendo o revólver que tinha dentro do bolso. Com um só tiro, arranco meu assassino deste mundo. Ele busca falar, fugir. Não pode. A morte já estava ali, no escuro, com sua imensa capa negra a arrastar no chão. A noite por si só é a morte. Sua capa escura leva o sol e o suspiro azul do céu. Mas logo este ressuscita. Já aquele homem não ressuscitara. A morte não o apanha no chão. Ela me observa, incrédula. Apenas me defendi!
    Busca voltar para casa, mas não me encontro. Entre tantas ruas mal iluminadas, me encontrei em uma, com apenas um poste. Encontro outro homem. Infeliz, ele me observa. Quer permanecer contra a parede. Sim, ele tem medo! Me imita, quem sabe para simpatizar. Tudo em vão. Mostro minha arma. Ele me mostra a dele. Ora, por que é capaz de mostrar sua arma e não mostrar seus traços?! É covarde.
    -Você que é covarde! – diz, lendo minha mente.
   -Que audácia! Falar isso para mim! – respondo – Já fui capaz até de matar!
    A morte chega novamente. Senta do outro lado da calçada e observa-me, sorridente. Já ao homem que tenho contra a parede, lhe ofereço minha coragem: aponto e atiro. Contudo, ele não morre.
    -Só morro quando você morrer, tolo! – me diz.
   -Então, que assim se faça – aponto a pistola diretamente contra o peito, ou ao que me parecia, uma vez que ainda me sentia puxado e empurrado para os lados. De repente, essas mesmas mãos que me governavam, me derrubam no asfalto. Mas o homem também cai. Ambos caímos. E a morte finalmente se levanta e me dá sua mão, sorrindo, simpática, como uma mãe que acolhe o filho... Contudo, ela queria brigar... 

Ana Cecília.

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