A silhueta era destacada pela escassa luz do luar. Uma linha tênue dividia a sombra humana de todo o breu ao redor. O vento era calmo, mas os cabelos se desgrenhavam aos poucos, bem como as gotas da chuva eram delicadamente lançadas sobre a pele já gélida. Delicadeza. Até o chover conseguia ser mais gentil e acolhedor do que aquele a quem amara.
O chão áspero e molhado – posto sob suas pernas e pés – sustentava toda a bagagem que trazia até aquele momento: uma cabeça atormentada que se cansara de pensar nas possibilidades – quem sabe infinitas – de como seus corpos poderiam estar em noites como aquela; e um coração – ainda batendo – porém periodicamente estilhaçado. Suas mãos repousaram sobre o peito, as mesmas que se desgastaram em intermináveis cartas e desenhos jamais entregues. Pés cansados e doloridos – mal saíra do lugar. Seu cansaço se dera pelas caminhadas por infernos particulares e terras jamais conquistadas. Vivera em uma rodoviária de incertezas e perdera o último ônibus para... Não sabia ao certo. Sempre fora a mesma criança perdida.
Não fora abandonado – se quer teve a oportunidade de um simples primeiro contato. Fora negado. Negado com o silêncio, a mais cruel canção que seus ouvidos apreciaram. Ao menos contara e expusera tudo de mais puro que havia dentro de sua pequena caixa torácica. Não com a voz - a boca só se abrira para o café pelando, fumegante – e sim com palavras. Corpo e alma, ambos colocados em um envelope pardo, com letras garrafais e caprichadas. Estava em sua complexidade naquela carta. A única que tivera coragem para entregar de fato. Mal fora lido e parara na lata do lixo.
Repousara todo seu corpo no chão à medida que a chuva caia cada vez mais pesada. Nem todas aquelas gotas – muito menos as águas de todas as tempestades, dos vastos oceanos – possuíam o volume das lágrimas que banharam sua face. Os olhos – pobres olhos, não sabiam nadar – morreram afogados.
Contudo, sabia, de uma forma ou de outra, assim como uma cicatriz, se recuperaria e selaria os cortes. Mas uma vez seu corpo – desde seus pequenos dedos até as entranhas do seu estômago – estaria novamente em sua plenitude. Sua estrutura física seria um belo cemitério contemporâneo, onde sorrisos cor de sangue floresceriam mais cedo ou mais tarde.
Por enquanto celebraria seu funeral com a chuva, a lua (por entre as nuvens) e o chão. E esperaria. Como um cristo renasceria. Poderia se dilacerar novamente, seu organismo faria o mesmo processo, quantas vezes mais fossem necessárias. À espera de uma unidade homogenia e indivisível. À espera do verdadeiro amor.
Matheus Torres.
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