Páginas

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Nos Braços da América

    Era uma noite fria de 1981. Uma noite tão escura que as estrelas pareciam estar em luto. Roosier sabia que não devia ter atendido o convite para aquela reunião de reencontro de veteranos de guerra. Encontrar alguns conhecidos e desconhecidos foi sua intenção, mas não imaginava levar um golpe tão bruto em sua alma.
    Os horrores do Vietnã durante muito tempo deixaram de visitar seus sonhos. Houve ocasiões que até mesmo acordado via aquelas cenas, como se tivesse voltado ao passado, vivas, tão reais quanto naquele tempo, assim como a voz de seu comandante também. Com muito custo havia se livrado de toda essa maldição. Mas naquela noite todas as lembranças voltaram inconvenientemente para o lugar que possuíam em sua mente.
   Deparou-se com alguns marines com quem havia servido em 61, precisamente em outubro de 1961, quando o presidente Kennedy havia ordenado o envio de um Esquadrão Farmgate da Força Aérea para o sul do Vietnã. Doze aviões. Doze malditos aviões!
    Ver aqueles caras depois de anos... Deus do Céu! Alguns deles cingindo muletas, outros em cadeiras de rodas, outros beirando a demência – todos tributários da piedade de suas esposas e filhos. Aquilo foi demais para Roosier. Parecia que via as bombas explodindo novamente ao redor enquanto seus companheiros rastejam e clamam pela vida que queriam ter, a vida que haviam entregado para o exército.
   Não aguentou. Foi embora. Estava tão perturbado e desorientado que esqueceu-se de que havia ido de carro, foi caminhando para casa. A Guerra: Plante uma semente demoníaca e verá crescer uma flor em chamas. Era assim que Roosier entendia a guerra agora.
  Pelos becos daquela cidade tranquila Roosier caminhava, naquele momento onde as ruas não possuem nome algum; as ruas de sua memória onde os anjos famosos não ousam passar. Cada passo era um tiro dado pela memória contra sua alma. Voltou a ouvir a voz de seu comandante que dizia: “Fogo!”. Ouvia o peso dos aviões rasgando e baleando o céu azul. “Fogo!”. Os ecos das faces do medo correndo apavorados vale abaixo.
    Chegar em casa parecia impossível. Cada passo um tiro. “Fogo!”. Caiu na calçada. Seus lábios se moviam mas não conseguia falar. Acima de sua cabeça, caído, podia ver o brilho daqueles prédios cheios de amantes e mentiras, de lares despedaçados. Sentia-se como um daqueles sonhadores que morrem só para ver o que há do outro lado.
   Conseguiu se levantar. Depois de muitos passos e tiros o caminho havia encontrado seu fim. A escadaria leva-o para o primeiro andar. Suas mãos viram a chave e lentamente destrancam a porta. Lá fora um homem respira através de seu saxofone e pelas paredes ouvimos a cidade rosnar. Lá fora onde a chuva ensaia uma visita. Lá fora onde mulheres e crianças correm para os braços da América.

Filipe Lemos

Um comentário: