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sábado, 14 de maio de 2011

Rosa-Come-Unhas

     -Um absurdo! – Dona Mariquinha dava seu palpite na reunião de condomínio do edifício Rômulo Santana.
     Foi um marco na história do condomínio: o síndico e vinte e três moradores dos trinta apartamentos do Romosanta – como o edifício era carinhosamente chamado – estavam ali reunidos para mostrar solidariedade com a Rosinha – a doce e meiga Rosinha! -, que estava passando por pequenos problemas. Apareceram pichações anônimas no muro do prédio com dizeres ofensivos. “A ROSINHA DO 27 RÓI AS UNHAS DOS PÉS”, “ROSA-COME-UNHAS” e outras frases estampadas em letras garrafais no muro do Romosanta compunham o novo cenário do, até então, harmonioso condomínio da Rua das Figueiras 1780.
    De fato, todos naquela reunião estavam horrorizados. Que calúnia! Nunca que a Rosinha – a santa Rosinha – ia fazer uma “porquisse” dessas! Todos estavam defendendo a imaculada Rosinha, mas a mesma não estava na reunião ainda.
    - É uma moça tão boa! Nunca fez mal a ninguém... – disse dona Jurema, que cada semana denunciava algum vizinho à polícia por barulho, peripécias dos filhos dos condôminos, ou pelo cachorro do seu Arnaldo, que insiste em usar a porta da dona Juju (ironicamente chamada) de banheiro. Mas nunca, nunquinha, tinha denunciado a dócil Rosinha.
     -É uma moça de respeito! Essas pichações são injustas! – disse Benedito, o Benê, ex-síndico do Rômulo Santana. Deixou de ser síndico, pois deve ter assediado todas as condôminas que possuem bustos grandes e um rostinho bonito. Tentara muitas vezes “alguma coisa” com a respeitosa Rosinha, mas dela ele não ganhou nada.
     -Vamos achar quem pichou o prédio e ligar para a polícia! Ela sempre foi uma das melhores moradoras! Sempre pagou as mensalidades em dia e nunca foi motivo de problemas! – falava o síndico Victório Brandão, que já fora candidato a vereador, gostava de falar em público – Devemos todos mostrar nosso apoio a essa cidadã que está sofrendo nas mãos dos vândalos dessa cidade que se assemelha muito com Sodoma e Gomo...
    No meio desse discurso político, Rosinha adentrou a sala de reuniões. Cara fechada, não olhava para nenhum vizinho. Todos a olhavam em silêncio. Tomou o poder da palavra e tirou do bolso um texto escrito à mão para ler em voz alta. Tinha a caligrafia perfeita, a adorável Rosinha! Começou seu discurso:
     -Eu, de fato, costumo roer minhas unhas dos pés... Não precisou mais nenhuma palavra. Rosinha não tinha mais nenhuma reputação – a nojenta Rosa-Come-Unhas. Daquele dia em diante, qualquer um que olhava para Rosinha – a asquerosa Rosinha – imaginava a cena grotesca daquela mulher delicada consumindo suas próprias unhas dos membros posteriores. Jurema passou a denunciá-la constantemente, por motivos incompreensíveis; Benê nunca mais falou com ela; e todos os condôminos passaram a evitar a temível moradora do vinte e sete, professora de idiomas, sem filhos e solteira – talvez para a vida inteira.
     E foi assim que o condomínio Rômulo Santana, edifício situado na Rua das Figueiras 1780, deixou de ser chamado de Romosanta e passou a ser conhecido, carinhosamente, como Prédio da Rosa-Come-Unhas.

Gabriel Dangió

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