Ontem à noite ele sonhou com ela. Seus corpos estavam abatidos por mentiras naquela cama. Ela, uma prostituta, jovem e sem sentimentos. Ele, marido de uma mulher que não suporta mais.
- Não sei como isso foi acontecer, cara. Eu estava apenas vagando pela cidade depois de uma briga com a Megy. De repente, parado no semáforo, eu vi ela. Não consegui pensar muito, apenas a desejei.
- Você precisa tomar cuidado. Prostitutas são criaturas traiçoeiras.
- Cala essa boca e me dá um cigarro. Eu não amo ela. É apenas sexo, desejo.
- Já chega de whysky, vamos pra casa. Não quero que você comece a chorar por causa de uma puta.
Sua cabeça está confusa, ele diz que não ama a garota, mas tem certeza de que isso é mentira. Chega em casa. Chegar em casa já é um motivo para uma discussão e ele não aguenta mais isso. Sai e deixa Megy falando sozinha.
Dirigindo pela cidade chega ao ponto em que a jovem prostituta espera por clientes. Ela entra no carro e logo começam a conversar. O caminho até o motel não é longo. Entram no quarto, tiram as roupas e deitam-se na cama. Agem como se o amanhã não fosse existir.
O primeiro beijo da noite, aquele gosto tão familiar. Gosto de tristeza. Tristeza por tê-la apenas à noite. Ela o beija com ternura, mas é uma ternura profissional.
- Logo eu estarei sozinho, ainda não sei dizer quando.
Ela permanece sem emoção. Conclui que não precisa dela, mas sabe que isso é mentira. Ela é perfeita para ele: Segura-o firme enquanto o orgasmo faz seu corpo tremer, beija como se fosse esposa apaixonada, diz o que ele precisa ouvir... mas é apenas à noite.
Após se recomporem ele paga pelo amor de uma noite. Dirigindo pelo caminho que leva-o para casa pensa que essa será a ultima vez que se deitará com ela, mas sabe que isso é mentira.
Algumas semanas depois a prostituta recebe uma carta. Fica curiosa. “Como aquele cara descobriu meu endereço?”. Já é noite e ela está se arrumando para ir ao trabalho. Senta-se nua na cama, uma toalha enrolada em sua cabeça abafa um perfume delicado. Seus seios são rijos, brancos, perfeitos. As pernas são longas e bem definidas. Seu rosto configura uma inocência que nunca denunciaria quem ela realmente é.
Começa a ler a carta. Aquilo não faz sentido. Carta de amor é ocupação de adolescentes imaturos e apaixonados. Está vestindo uma calcinha quando termina de ler a carta, coloca a folha sobre a cama, pega um isqueiro e um cigarro em sua bolsa. Lê mais uma vez a carta e depois queima a folha. Ama aquele homem, como nunca amou ninguém... mas apenas à noite.
Filipe Lemos
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