Estavam naquela roda de amigos onde a prosa é longa e cheia de gargalhadas. E como sempre popular, a “mentira” é a que não falta, jazia ali, perambulando aqui e acolá, com muito entusiasmo.
- Ouçam! – disse Pedro. Na fazenda do...
- Ih!!! Responderam todos. Lá vem mentira na certa!
- Deixe-o continuar! – cochichou Diogo. Se é tão esperto assim, veremos.
- Não isso aconteceu realmente! – exclamou Pedro. Foi um fato real contado pelos...
- Tudo bem! – todos responderam. Continue a sua história.
- Ok – disse Pedro. Como eu já dizia, na fazendo do meu tataravô não havia água, e isso é uma ruína para uma imensa fazenda. Mas para a inteligência humana não há muros. Como por aquelas bandas do sertão...
- Que bandas!? – perguntou André.
- Ah... não interessa, apenas ouça – disse Pedro - Pois bem....como lá as fazendas são vizinhas, meu tataravô, entrou em um acordo com um fazendeiro vizinho...que não me lembro qual foi o trato...mas isso não interessa. Então como o vizinho fazendeiro, por mãos divinas fora abençoado com um lindo riacho, que cortava suas imensas terras, meu tataravô, com o acordo feito, construiu uma longa e imensa bica em que a água corria livremente, desembocando da terra vizinha e caindo nas terras do meu saudoso tataravô. Com essa criatividade e inteligência obtiveram água, e dizem que até hoje ainda existem água lá na fazenda...
- Mas e a bica? – perguntaram todos. Ainda está lá?
- Pois é... - respondeu Pedro. - Agora vocês entenderão o mistério... Como toda madeira um dia acaba, a bica apodreceu e caiu. Dizem que, como a água já havia acostumada a sua corrente por muito tempo, de forma misteriosa continuou a sua corrente pelo ar... sem cair ao chão.
- Ouçam! Ouçam! – interferiu Diogo - Aconteceu quase o mesmo incidente... Meu avô contava que o seu pai comprara uma fazenda também. Mas com um tanto azar a fazenda estava suja, e por esta razão contrataram um caboclo para limpá-la. O tal indivíduo era meio zanzão, sabe, não girava bem da cabeça. Ele começou a limpar os campos usando uma enorme foice, cortava aqui, cortava ali e assim prosseguia o seu trabalho...
- Nossa!!! – interferiu André. - Com uma enorme foice, ele devia ser um gigante!!!
- Sim! – continuou Diogo. - E olha que justamente onde ele limpava habitava um cavalo selvagem... e como o mato estava tão alto, em um descuido, sem perceber...Plof!!! Cortou o pescoço do pobre animal!!! Em meios aos apuros, despiu-se do cinto e tentou amarrar a cabeça do cavalo ao pescoço, esperançoso no ditado que se dizia por lá: “com o sangue quente, ainda é possível colar”. Imaginem que o atrapalhão se deu bem, isso de fato aconteceu, mas em meios aos apuros a cabeça colou-se errado, ficando com a cabeça para cima!
- Ahahah!!! – riram-se todos.
- Deve ter ficado o máximo – disse André. - Imaginem um cavalo com a boca pra cima?!Um monstro!
- Mas como será que ele pastava? – perguntou Pedro.
- Ah, ele se alimentava das folhas e ramos das árvores! – respondeu Diogo.
- Ah sim! Isso ficou fácil para ele – disse André
- E a água? – perguntou Pedro. Ele talvez esperava a chuva para saciar-se da sede...mas se não chovesse? Pobre animal!
- Simples! Simples! – determinou Diogo. - Ele saciava a sede através da água da fazenda do seu tataravô... a água que havia acostumada a sua corrente pelo ar!
Aldecy Fernandes - Kadiwéu
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