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quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Amigo

     Um amigo encontrara outro, recém chegado de férias pela Europa e pergunta como foi a viagem:
     - Enquanto estava lá foi tudo bem, Paris, Londres, Barcelona. Mas minha viagem de volta foi uma tristeza. Imagine você que tive a maldita idéia de voltar de navio. Desde criança sonhava em viajar de navio.
     - E daí, você enjoou a bordo?
     - Pior, muito pior. Eu conto: ainda nos cais, quando eu ia subir a escada de bordo, vi uma mulher, uma morena fantástica. Ela me encarou e me lançou um sorrisinho malicioso, mas discreto. Percebi que estava acompanhada, mas naquela confusão do embarque não olhei a cara do homem. Só voltei a encontrar a morena, horas depois, passeando no convés. Ela se aproximou, colocou um papelzinho na minha mão e seguiu em frente sem olhar para trás. Estava escrito: “Camarote 110, 10h00”.
     - Você foi?
     - Claro que fui. Que mulher, meu amigo!Que corpo!Juro que nunca havia tido antes uma noite de amor como aquela!
     - Mas você não disse que ela viajava acompanhada?
     - Sim, mas ela explicou que o marido é viciado em jogo e iria ficar até tarde numa roda de carteado. “Não tem perigo de que ele volte antes das três da madrugada”
     - Então não entendo porque você reclama...
     - Já vai entender. Na tarde do dia seguinte eu estava descansando no convés quando um casal se aproximou. A minha morena e o marido. Ela foi logo me abraçando: “Heitor! Que surpresa! Você neste navio! Mas me deixe te apresentar minha mulher, estamos em lua de mel. Dolores, este é o Heitor, velho amigo de infância, afilhado de meus pais, somos quase irmãos!”
     - Puxa, que constrangimento. E você, como reagiu?
     - Eu estava querendo cair de morto. Gaguejei um “um muito prazer”, inventei uma dor de cabeça e fui para meu camarote, chorar de vergonha e remorso. Chorei horas a fio. Você faz idéia, fazer amor com a esposa de Alberto, meu melhor amigo de infância, um cara que, como ele mesmo disse, é quase um irmão pra mim!
     - Reconheço que deve ser terrível. E como foi o resto da viagem?
     - Ah, foi um tal de fazer amor e chorar, fazer amor e chorar, fazer amor e chorar...

Aldecy Fernandes - Kadiwéu

O Espelho Mágico

     Sempre fui sonhador. Quando criança sonhava em ser policial, seria talvez pelo fato de assistir aqueles filmes de ação, terror, em que um soldado corajoso em sua missão, no final torna-se um herói.
     No entanto, a vida foi passando e o sonho adormeceu. Com as experiências e conhecimentos, renasceu um outro personagem interior, fanático por futebol. Personagem este, que batalhou no gramado de forma esforçada e inexplicável. Sem dúvida, nesses esforços adquiri habilidades, mas não o suficiente para tornar-me um excelente profissional, pois a fila é enorme.
     Mas não desisti, mesmo não alcançando o objetivo. Encontrei um amigo mágico, que me transforma e me leva além das dimensões da realidade. Atualmente, já conformado e realizado, fico perante o “amigo mágico espelho”. Ali eu realizo e sou realizado. Fico admirando o personagem diante de mim, uniformizado com a camisa do meu time favorito. Me emociono com o “rei do gramado”, realizando os mais difíceis dribles. Do outro lado do universo é bem diferente, ouço de forma inexplicável os aplausos da torcida, ouço a voz do técnico, o eco dos gritos da comemoração, vejo sonhando acordado o troféu do meu melhor jogador do mundo.
     Este mundo a mil maravilhas é só meu. Toda vez que ali me encontro, o meu ser se alegra e se realiza. Quando me retiro deste mundo, sou um outro personagem e fico indagando: - “Existem duas almas, ou dois seres em uma só pessoa?”. Creio que sim. Formamos e criamos. Interiormente somos quem queremos que seja. Exteriormente, somos a realidade ou não. Encontramos várias maneiras de descobrir as almas que habitam em nós.
     Descobri-me em ambos. E sou quem eu sou. Há momentos que o jogador profissional no espelho sai em companhia a passear comigo e ensina-me a vencer as circunstâncias que o destino nos traça. Retornando ao mundo do “rei do gramado”, sorrindo e com orgulho pergunto: “Espelho, espelho meu?! Existe alguém melhor que eu?!”

Aldecy Fernandes - Kadiwéu

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A Mentira

Estavam naquela roda de amigos onde a prosa é longa e cheia de gargalhadas. E como sempre popular, a “mentira” é a que não falta, jazia ali, perambulando aqui e acolá, com muito entusiasmo.
- Ouçam! – disse Pedro. Na fazenda do...
- Ih!!! Responderam todos. Lá vem mentira na certa!
- Deixe-o continuar!  – cochichou Diogo. Se é tão esperto assim, veremos.
- Não isso aconteceu realmente! – exclamou Pedro. Foi um fato real contado pelos...
- Tudo bem! – todos responderam. Continue a sua história.
        - Ok – disse Pedro. Como eu já dizia, na fazendo do meu tataravô não havia água, e isso é uma ruína para uma imensa fazenda. Mas para a inteligência humana não há muros. Como por aquelas bandas do sertão...
- Que bandas!? – perguntou André.
- Ah... não interessa, apenas ouça – disse Pedro - Pois bem....como lá as fazendas são vizinhas, meu tataravô, entrou em um acordo com um fazendeiro vizinho...que não me lembro qual foi o trato...mas isso não interessa. Então como o vizinho fazendeiro, por mãos divinas fora abençoado com um lindo riacho, que cortava suas imensas terras, meu tataravô, com o acordo feito, construiu uma longa e imensa bica em que a água corria livremente, desembocando da terra vizinha e caindo nas terras do meu saudoso tataravô. Com essa criatividade e inteligência obtiveram água, e dizem que até hoje ainda existem água lá na fazenda...
- Mas e a bica? – perguntaram todos. Ainda está lá?
- Pois é... - respondeu Pedro. - Agora vocês entenderão o mistério... Como toda madeira um dia acaba, a bica apodreceu e caiu. Dizem que, como a água já havia acostumada a sua corrente por muito tempo, de forma misteriosa continuou a sua corrente pelo ar... sem cair ao chão.
- Ouçam! Ouçam! – interferiu Diogo - Aconteceu quase o mesmo incidente... Meu avô contava que o seu pai comprara uma fazenda também. Mas com um tanto azar a fazenda estava suja, e por esta razão contrataram um caboclo para limpá-la. O tal indivíduo era meio zanzão, sabe, não girava bem da cabeça. Ele começou a limpar os campos usando uma enorme foice, cortava aqui, cortava ali e assim prosseguia o seu trabalho...
- Nossa!!! – interferiu André. - Com uma enorme foice, ele devia ser um gigante!!!
- Sim! – continuou Diogo. - E olha que justamente onde ele limpava habitava um cavalo selvagem... e como o mato estava tão alto, em um descuido, sem perceber...Plof!!! Cortou o pescoço do pobre animal!!! Em meios aos apuros, despiu-se do cinto e tentou amarrar a cabeça do cavalo ao pescoço, esperançoso no ditado que se dizia por lá: “com o sangue quente, ainda é possível colar”. Imaginem que o atrapalhão se deu bem, isso de fato aconteceu, mas em meios aos apuros a cabeça colou-se errado, ficando com a cabeça para cima!
- Ahahah!!! – riram-se todos.
- Deve ter ficado o máximo – disse André. - Imaginem um cavalo com a boca pra cima?!Um monstro!
- Mas como será que ele pastava? – perguntou Pedro.
- Ah, ele se alimentava das folhas e ramos das árvores! – respondeu Diogo.
- Ah sim! Isso ficou fácil para ele – disse André
- E a água? – perguntou Pedro. Ele talvez esperava a chuva para saciar-se da sede...mas  se não chovesse? Pobre animal!
- Simples! Simples! – determinou Diogo. - Ele saciava a sede através da água da fazenda do seu tataravô... a água que havia acostumada a sua corrente pelo ar!

Aldecy Fernandes - Kadiwéu