Um amigo encontrara outro, recém chegado de férias pela Europa e pergunta como foi a viagem:
- Enquanto estava lá foi tudo bem, Paris, Londres, Barcelona. Mas minha viagem de volta foi uma tristeza. Imagine você que tive a maldita idéia de voltar de navio. Desde criança sonhava em viajar de navio.
- E daí, você enjoou a bordo?
- Pior, muito pior. Eu conto: ainda nos cais, quando eu ia subir a escada de bordo, vi uma mulher, uma morena fantástica. Ela me encarou e me lançou um sorrisinho malicioso, mas discreto. Percebi que estava acompanhada, mas naquela confusão do embarque não olhei a cara do homem. Só voltei a encontrar a morena, horas depois, passeando no convés. Ela se aproximou, colocou um papelzinho na minha mão e seguiu em frente sem olhar para trás. Estava escrito: “Camarote 110, 10h00”.
- Você foi?
- Claro que fui. Que mulher, meu amigo!Que corpo!Juro que nunca havia tido antes uma noite de amor como aquela!
- Mas você não disse que ela viajava acompanhada?
- Sim, mas ela explicou que o marido é viciado em jogo e iria ficar até tarde numa roda de carteado. “Não tem perigo de que ele volte antes das três da madrugada”
- Então não entendo porque você reclama...
- Já vai entender. Na tarde do dia seguinte eu estava descansando no convés quando um casal se aproximou. A minha morena e o marido. Ela foi logo me abraçando: “Heitor! Que surpresa! Você neste navio! Mas me deixe te apresentar minha mulher, estamos em lua de mel. Dolores, este é o Heitor, velho amigo de infância, afilhado de meus pais, somos quase irmãos!”
- Puxa, que constrangimento. E você, como reagiu?
- Eu estava querendo cair de morto. Gaguejei um “um muito prazer”, inventei uma dor de cabeça e fui para meu camarote, chorar de vergonha e remorso. Chorei horas a fio. Você faz idéia, fazer amor com a esposa de Alberto, meu melhor amigo de infância, um cara que, como ele mesmo disse, é quase um irmão pra mim!
- Reconheço que deve ser terrível. E como foi o resto da viagem?
- Ah, foi um tal de fazer amor e chorar, fazer amor e chorar, fazer amor e chorar...
Aldecy Fernandes - Kadiwéu
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