Russia, 29 de março de 2009. Ao menos 25 pessoas morrem em decorrência de duas explosões que atingiram o metrô de Moscou. Num dos vagões estavam Rafaela e Estevão recém casados numa cerimônia civil, e o único irmão de Estevão, Gustavo, de 18 anos. Viajavam de lua de mel acompanhados do adolescente que, órfão de pai e mãe, bem como o irmão, logicamente, foi o primeiro a verificar possíveis saídas. Nenhuma foi encontrada. Estavam presos, e só o que lhes restavam era aguardar a morte; uma outra explosão, talvez.
Certo de que morreriam ali, Estevão disparou:
- Se é aqui que nossa vida termina, que seja sexo a última coisa que façamos.
Foi como uma ordem. Rafaela despiu-se e cedeu tudo de seu ser ao marido. Ambos estavam quentes como nunca. Estevão revelou-se um tanto sádico e Rafaela mostrou-se a verdadeira escrava que regozijava a cada tapa, a cada puxão de cabelos.
Os espíritos lascivos e animal arrebataram o casal que passava a experimentar o extremo do prazer e satisfação, sentindo pelo suor, o salgado da morte.
Até então, ainda refreado pela noção de que na sua frente amavam-se seu irmão e sua cunhada, e que ali não deveria ter parte, Gustavo apenas assistia o espetáculo carnal num dos assentos deslocados pelo choque e observava o vagão que mais parecia um jardim de defuntos. Os gritos e berros de prazer dos recém casados mesclavam-se aos gemidos de dor dos poucos que ainda restavam vivos, porém inconscientes, já na passagem para o além-vida.
Num dado instante, de pé e apoiada numa das barras de ferro e refestelada para ser usada ao bel prazer de Estevão, Rafaela levantou o rosto e mirou os olhos do cunhado que já haviam encontrado os seus antes. Gustavo fitava os cabelos louros molhados da cunhada, a maquiagem borrada, os hematomas das agressões sádicas no rosto, os seios escondidos por detrás do tórax do irmão, as pernas finas, porém firmes entrelaçadas a altura da cintura de Estevão e o olhar cálido daquela mulher chamaram sua atenção. Rafaela chorava o desespero contido pelo prazer imoral de ser possuída pelo esposo que só lhe fazia querer mais, mais e mais.
Os monstros estavam a solta, as feras domadas encontravam o caminho da liberdade, a única verdade era a chance e o proibido era pura mentira.
Foi então que o olhar de Rafaela configurou-se num convite irresistível. Imediatamente atraído, Gustavo juntou-se a cunhada e ao irmão. Amam-se os três em meio a sangue, destroços, cadáveres e moribundos.
Tiveram outra chance, outra verdade, outra possibilidade. Eram três pessoas e não mais possuíam laços, senão a obrigação de fazer jus a liberdade que a falta de sentido da vida traz. No entanto, o único momento em que irmãos se tocaram foi quando, prensada numa das paredes, ao lado de um homem certamente morto, Rafaela segurou os cabelos do marido e do cunhado e os trouxe até a boca.
Três línguas e três sabores distintos num momento singular de natureza sobre-humana.
Abateram-lhes o sono. Jaziam no chão suados e exauridos, quando ouviram-se vozes humanas. O socorro tão improvável chegou. Polícias, bombeiros e paramédicos russos os resgataram.
De volta ao Brasil e alguns meses após o ocorrido, o irmão mais novo encontra-se numa consulta a fim de recuperar-se dum possível trauma.
- Ah se soubesse de mim! – disse Gustavo de pé, uma mão na cintura e a outra apoiada na janela do escritório com vistas pro mar.
- Sou seu psicólogo, Gustavo. Se há alguém ao qual você pode confiar os seus mais íntimos segredos, esse alguém sou eu. Nada do que disser aqui sairá de dentro destas paredes.
- É que você não entende! Já amou tanto alguém que... não, não é amor, é necessidade, é fissura, é vontade, é desejo. – disperso, com os olhos um tanto cheio de lágrimas e com as palmas cerradas, o paciente prosseguiu após uma pausa – É sofrimento eterno. Eu não significo nem sequer uma possibilidade, nem isso. Logo eu que faria tudo, que me doaria por inteiro. Sabe como é sentir o gosto da boca de alguém que você venera, mas não pode ter? Isto estava tão certo pra mim, ainda mais depois que soube que eles se casariam... me convenci que jamais aconteceria, que era impossível, mas a vida brincou comigo: me fez provar o gosto do beijo de quem tanto quero uma vez, e agora me priva de saborear aquela boca novamente. Antes tivesse morrido naquela terra gelada! Mas agora vivo, vivo, e o pior: a esperança não se apaga, ela se manteve e cresce com a presença, cresce a cada olhar trocado por acaso, a cada toque inocente. Se a vida ainda perdesse a graça... mas não; o coração que ainda bate naquele busto alimenta a chama que trago dentro de mim. Estou destinado ao misto de dor e alegria, ao passo que me designo o pior dos homens. Como sou vil, baixo.
- Queira entender, Gustavo, o acidente na Rússia, as explosões no metrô... você tinha 18 anos. Dado o seu estilo de vida, seus hábitos e costumes, você não estava nem ao menos preparado para uma relação sexual digamos que, convencional. Já conversamos sobre isso em sessões anteriores, achei que já havíamos solucionado um bom tanto desta questão em especial. As experiências pela qual você passou são de um potencial traumático gigantesco.
- Você tá brincando! Já disse: que o socorro não tivesse chegado e que aquelas horas em que estive com meu irmão e a Rafaela tivessem sido prolongadas e repetidas até que enfim morrêssemos todos e levássemos para o túmulo essa lembrança terrível e tão viciante. Aquelas explosões podem ter sido o que de melhor me aconteceu e acontecerá na vida!
- Por favor, seja claro: do que estamos falando? Não vejo nenhum traço traumático adquirido; não neste episódio em particular, muito pelo contrário, você mesmo se julga vil, mas causa confusão ao dizer e ter dito, em sessões anteriores, que apreciou o ocorrido. Por algum acaso, você pode satisfazer um desejo até então proibido? Você nutria uma paixão por sua cunhada?
- Doutor, Rafaela não significa nada pra mim.
- Pois então do que tanto gostou assim?
- Do cheiro do meu irmão!
Thiago Alcebíades
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