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quarta-feira, 14 de março de 2012

Entre Janelas (Compilação)

Molhando o indicador folheou a agenda telefônica pelas páginas amarelas correspondentes à letra T.
Fechou-a. Não encontrou na cidade nenhum traficante de felicidade.
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O telefone toca, a campainha estala lá de fora, o correio nunca erra a correspondência e até bilhete passado pelo vão da porta deixam. Sabem meu número e endereço. Farei umas perguntas a eles, assim me ajudam a me encontrar nessa perdição de todo eu.
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; meu pensamento é poesia, canta o lirismo que vejo por esses dois olhos míopes. Não daqueles belos correndo na grama toalha vermelha pic nic. A métrica é dos aleijados sem dentes abandonados ignorados tementes a Deus nosso Senhor Jesus Cristo as mãos imundas estendidas uma moeda por favor. O ritmo dos necessitados correndo de sol a sol batendo de casa em casa tem pão duro? o suor molhando a testa lavando a alma amarga.

Passo a passo calçada após calçada balas compradas no farol é a arte da rua que minha mente canta. Essa vida dura e seca: a elegia da nossa gente.
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Olhe com que facilidade os pássaros se equilibram serena e elegantemente nos fios elétricos desses postes.

E a gente aqui com os dois pés no chão, caindo dia sim, dia não. Sem serenidade ou elegância, um pouco de sangue na boca e por azar alguns dentes quebrados. Sem asas e, por vezes, vontade de se levantar.
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Caneta piloto preta em mãos. Não escrevia poesias em um caderno velho de folhas amareladas, não desenhava faces anônimas com corpos de homem palito esquálido na parede mal rebocada, muito menos transcrevia na pele - por sobre todas as marcas e a fuligem da cidade - os versos de suas músicas preferidas. O canetão corria com dificuldade pelo lençol branco da cama de casal: linhas tracejadas. Uma silhueta de gente delimitando a ausência, denunciando a escova abandonada no armário do banheiro e justificando essa insônia mortificada de cada dia.
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Não marque nada comigo. Aponte o cano de uma arma carregada no meio da minha boca mas não me dê uma data da semana, um número do mês no calendário pendurado sobre o azulejo.
O movimento dos ponteiros me dói em carne viva.






Matheus Torres

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