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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Um Filme Snuff

Filmes snuff são filmes que mostram tortura, morte ou assassinatos reais de uma ou mais pessoas, sem ajuda de efeitos especiais, para o propósito de distribuição e entretenimento ou exploração financeira.


            Claquete, luz, câmera e acorda! Acorda! Ã!? Ah, já vou... Vermelho, ver... me... ACORDA! Já tá na hora, porra. Quê!? Onde eu tô? Ah, que inferno. Arrastada põe-se de pé. Esgueira-se ziguezagueando até... Nossa, tô horrível. Aquele choque de água gelada de encontro ao rosto pela manhã. Escova, pasta, enfia na boca, esfrega, esfrega, esfrega, esfrega, ânsia de vômito, argh! Chega. Cospe o branco e esconde o bafo com tabaco.
            Nossa, isso aqui tá um chiqueiro. Arranca fora a roupa. Tô nojenta, olha essa carne sobrando, preciso emagrecer. Ai, que canseira viu. Será que fizeram um negrinho? Merda, já tá na hora, vou suja assim mesmo. Não acho nada nessa pocilga! Enfia o primeiro pano que aparece por sobre a cabeça que sufoca de tão apertado; pega o jeans sujo e surrado e puxa nas pernas, arranhando e espremendo seus glúteos; uma tortura incessante desse último par de sapatos.
            Ao menos isso. Mas a esperança morre no primeiro trago de café: é café envelhecido, frio como a madrugada de inverno. O sol nem ousou em dar as caras por aqui. É naquele breu da manhã que os mortos se levantam de suas sepulturas e se arrastam pra se enfiar em outro buraco.
            Corre que já tá em cima da hora. Droga! Rasguei a roupa. Esse tecido aberto expondo minhas carnes. Não tem troca, não tem saída. Pega a corda, passa na cabeça da agulha, finca no tecido e puxa do outro lado, enfia do outro e puxa deste, enfia e puxa, enfia e puxa, enfia e puxa vida, tô atrasada! Enfia e... Ai, caralho, que dor! Chupa o dedo perfurado pelo metal quase que instintivamente, mas que desejo é esse por sangue? Ah, não aguento mais isso, enfia e puxa, quero voltar pra cama, enfia e puxa, enfia, faz o laço e amarra com força estrangulando o nó. Podia contar uma mentira pra faltar hoje. Corta a linha e corta essa! É sua primeira semana de trabalho e já tá morta!? Não tem saída, corre que já tá na hora. Mas porta tá trancada. Esqueci a chave. Cadê a chave? Esqueceu por quê? Cadê? Cadê? Aqui! Por que aqui!? Ah, não importa, já tá na hora. Abre a porta e o dia terminou. Corta!

Lucas Bueno

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