Um ruído... Um sonar...
Em pé, com os braços apoiados sobre o teto do carro, Brice queima o filtro de seu cigarro com o último trago. O filtro voa deixando um rastro no ar frio na noite de Nova York. Um ruído não sai de sua mente. A cabeça baixa é suspensa pelos dedos que se agarram entre os cabelos negros. Maldito ruído que se mistura com o vento forte, como o que move as ondas em uma praia. Sua memória funciona, nesse momento, como um sonar emitindo o som que sinaliza uma busca ansiosa em sua mente por algo que faça sentido...o sonar apita...a resposta chega...nada.
O carro começa a mover-se lentamente pelas ruas de Nova York. Brice passeia como um turista, seguindo vagarosamente pela 7th Avenue avista a grande Times Square. Tudo parece uma longa cena em slow-motion, seus movimentos, seu carro, todas aquelas pessoas caminhando lentamente como vultos entre as luzes hipnotizantes da Times Square. Brice não tem pressa, ninguém o espera em casa. Seu respirar é calmo, aprecia toda a cena que se desmembra diante de seus olhos. Todas as luzes, todos os comerciais, todas as lojas, tudo vagarosamente. O ruído é insistente... O sonar apita. Muita coisa em sua mente e nada para pensar nesse dia de folga, dia que com muito esforço foi prolongado por alguns drinks. Foram muitos os meses em que trabalhou sem um dia de folga, não queria folga, afogava-se no trabalho para não ter que pensar em sua vida arruinada. Brice carrega sua arma até mesmo nos dias de folga, a experiência fez com que isso se tornasse um habito, chamadas de emergência eram recorrentes e ir ao Brooklin ou à Hell’s Kitchen desarmado não é boa idéia.
Subitamente, como em uma colisão, sua mente atropela algo escondido em sua memória. A realidade. A plena consciência do tempo, existência e finitude. Isso é perturbador... O ruído continua. Tudo de uma só vez: Eduard Brice, detetive da divisão de homicídios. Pai de duas filhas lindas. Divorciado. Viciado em heroína. Todas essas verdades rasgando sua sanidade, atropelando sua calma em contraste com a cidade que se movimenta lentamente lá fora. É horrível.
Seu coração dispara em uma agonia alucinante. Sua pele empalidece. A ansiedade faz seus dedos congelarem no volante enquanto o carro faz a curva à direita e cai na 39th Street. Segue, com a garganta seca, até chegar ao cruzamento com a 9th Avenue. Para em frente a um edifício antigo na 9th, tira a jaqueta e joga no banco de trás. Por cima da camiseta azul o coldre axilar guarda sua Colt. 45. Brice treme enquanto abre o porta-luvas e em um fundo falso pega a droga, uma colher, seringa... O ruído, maldito ruído! A borracha apertando seu braço faz a veia saltar enquanto seu coração bate descompassado.
O ruído desaparece. Tudo muda repentinamente. O delírio causado pela droga o faz cair em uma espécie de mergulho noturno. A atmosfera é comprimida, o som é frio, a pressão da água, que cobre sua mente, espreme sua carne. Submerso consegue ouvir seu coração bater abafado no peito. Na escuridão lenta de seu oceano de surrealidades um som doce como de uma caixa de música mistura-se com uma voz metálica entoando uma linda melodia indecifrável...o sonar funciona melhor agora. Tudo isso é maravilhoso, perfeito, era o que precisava. Explora a imensidão negra, e a canção se aproxima mais e mais.
Uma pontada forte faz Brice abrir os olhos e rapidamente entrar em um estado de oscilação entre o delírio e a realidade. No seu mergulho algo agarra suas pernas na escuridão, muitas mãos começam puxar o seu corpo para as profundezas. É uma luta violenta para sobreviver. Sua pupila está contraída. Já não dá mais para respirar com tanta eficiência e cada vez mais sua consciência vai se perdendo na imensidão escura. A morte em seu delírio comunica-se com a morte real.
Lembranças aparecem diante dos seus olhos como fotografias. A infância, os jogos de baseball com seu pai... A escola, as medalhas. Os frames rasgam sua mente. Como labaredas as imagens aparecem e se apagam dando lugar a outras... O ruído está lá novamente...o sonar continua emitindo o som que caracteriza a busca. Os frames continuam... A academia de policia, o casamento, o divorcio... Os corpos nas cenas dos crimes que investigou. A morte chega... Um segundo e o ultimo suspiro.
A cabeça cai sobre o volante. O nariz sangra e os olhos abertos ainda brilham. O ruído insiste. As ruas e as pessoas continuam sua peregrinação em câmera lenta, as luzes, as vozes, os carros, tudo caminhando para um estado de letargia. Brice cai de lado no banco do passageiro. O sonar apita... Numa ultima busca.
Filipe Lemos
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