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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Poema

- Paulina Pauzack, porque casastes? Fizemos uma jura de amor eterno, não te lembras? Agora tens por esposos meu pior inimigo e ainda trai a ambos com um garoto que poderia ser teu filho.  Neste momento, percebo que tudo não passou de um engano e que apenas interpretava me amar.
- Oh, Carlos Carpano! Não me tomes assim! Há coisas que não sabes. Quando seu carro explodiu há vinte anos atrás e todos acreditávamos em sua morte, fiquei desesperada! Eu não tinha para onde ir; foi então que Rodolfo Rodrigues me pediu em casamento. Não pude recusar, pois estava grav...
Ahhhhhhh nããããããão! Droga. Justo no momento em que Paulina Pauzack iria revelar que o Fernando Fernandes é filho de Carlos Carpano! Porque a energia tinha que acabar agora?! São os minutos finais do último capitulo da novela... último capitulo da novela... Droga. A pior parte é que não vou descobrir o porquê do filho da Maria Marasquino nascer azul. Vontade de ir ao banheiro. Mas, e se a energia voltar? Melhor esperar. Azul? Porque azul? Aumentando a vontade de ir ao banheiro... Não posso ir agora; o horário de usar o banheiro é após o termino da novela e antes do jantar. Carlos Carpano disse que quando se está morrendo, seus sentidos se poetizam. Balela. Porque poema?! Ninguém gosta de poema. Eu não gosto de poema. Eles apenas te fazem sentir, entender e ver coisas que você não quer, para depois ter de ficar pensando nelas pela eternidade. Não quero isso. Nossa, tem uma teia de aranha naquela parede. Preciso limpar. Não vou limpar, não posso usar meu pano de prato; ele está intacto, intocável e muito limpo. Ao sinal de escuridão a claridade se dissipa, e como um deus adquire vontades de outrem, exige sacrifícios e retorna quando nós, fracos e humanos, cansamos de esperar. Vou deixar o pano em meu ombro mesmo. Além do mais, eu teria que levantar daqui e a energia poderia voltar. Definitivamente não. Ei, há varias teias de aranha... E como este chão está sujo! Já são quatro horas da tarde. Meu jantar vai atrasar. Droga. Será que tudo sempre foi escuro assim? Nem ao menos me lembrava desta foto na parede.Quantas correspondências na porta... A energia precisa voltar, tenho tarefas a cumprir. É melhor me concentrar em olhar apenas para a televisão.
Blac!
Ele... caiu. Meu pano de prato caiu neste charco de lodo ao qual meus pés amaciam. Ficou tão... sujo!
Quem é esta refletida na tela? Ela me hipnotiza. Está trajada a penas por peças intimas ainda etiquetadas; ao seu lado, um preservativo usado e variadas notas de dinheiro que já não possuem mais valor. Seu corpo pintado de roxo, tela construída por um bom artista. Olhos flamejantes, carimbados pela dor. Parece-se comigo. Seus olhos parecem-se com meus olhos; mas não são os meus. Esta não sou eu. Esta não pode ser eu.
Oito horas. Preciso ir fazer o jantar. Preciso recuperar meu pano de prato. Tudo voltará a ser como era... Sim. Tudo voltará.
Aqueles olhos...
BKKKKKK
Chamas do fogão: lentas, estáveis, poderosas e cruéis. Os olhos...tentam me dizer algo. O que eles tentam me dizer? Parecem clamar por socorro. Vou ajudá-los. Preciso ajudá-los. Não tenho alternativa.
Os olhos, o pano de prato, as chamas do fogão
Fogo.
Solidão, rosto retalhos rabiscados quase carvão
Neles, a última leitura:
Aqui jaz um coração.
Silêncio.
Luz.
- Boa noite. Estamos no ar com o Jornal Real.


Ana Esther

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