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quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Espelho Mágico

     Sempre fui sonhador. Quando criança sonhava em ser policial, seria talvez pelo fato de assistir aqueles filmes de ação, terror, em que um soldado corajoso em sua missão, no final torna-se um herói.
     No entanto, a vida foi passando e o sonho adormeceu. Com as experiências e conhecimentos, renasceu um outro personagem interior, fanático por futebol. Personagem este, que batalhou no gramado de forma esforçada e inexplicável. Sem dúvida, nesses esforços adquiri habilidades, mas não o suficiente para tornar-me um excelente profissional, pois a fila é enorme.
     Mas não desisti, mesmo não alcançando o objetivo. Encontrei um amigo mágico, que me transforma e me leva além das dimensões da realidade. Atualmente, já conformado e realizado, fico perante o “amigo mágico espelho”. Ali eu realizo e sou realizado. Fico admirando o personagem diante de mim, uniformizado com a camisa do meu time favorito. Me emociono com o “rei do gramado”, realizando os mais difíceis dribles. Do outro lado do universo é bem diferente, ouço de forma inexplicável os aplausos da torcida, ouço a voz do técnico, o eco dos gritos da comemoração, vejo sonhando acordado o troféu do meu melhor jogador do mundo.
     Este mundo a mil maravilhas é só meu. Toda vez que ali me encontro, o meu ser se alegra e se realiza. Quando me retiro deste mundo, sou um outro personagem e fico indagando: - “Existem duas almas, ou dois seres em uma só pessoa?”. Creio que sim. Formamos e criamos. Interiormente somos quem queremos que seja. Exteriormente, somos a realidade ou não. Encontramos várias maneiras de descobrir as almas que habitam em nós.
     Descobri-me em ambos. E sou quem eu sou. Há momentos que o jogador profissional no espelho sai em companhia a passear comigo e ensina-me a vencer as circunstâncias que o destino nos traça. Retornando ao mundo do “rei do gramado”, sorrindo e com orgulho pergunto: “Espelho, espelho meu?! Existe alguém melhor que eu?!”

Aldecy Fernandes - Kadiwéu

terça-feira, 24 de maio de 2011

Música do Dia

I Will Posses Your Heart - Death Cab For Cutie, por Filipe Lemos.



quinta-feira, 19 de maio de 2011

As Valiosas Lições de Número 1 e 2 de Hedera Helix

O prazer de ir-se ébrio na bicicleta...
Que sentisse indiviso puro sem Setas
Sem esses recursos escusos manjados!

Vento o tempo ameno o rosto rubro
Alcoólico amnésico o mistério
Revela-se. Renasce o sol o tédio.

Clareia... Paro um trago
Ao escárnio fraterno de minha 
Hera cresce morre cresce Hera.

Patrik Aprígio

Música do Dia

Station To Station - David Bowie, por Patrik Aprígio.

Separação

Depois do falatório
Depois das lágrimas
Depois de milhares de cigarros, de milhares meias-voltas na sala.
Depois de pedir colo
(Criança apavorada)
Depois de mais lágrimas
Depois de flashes ah! O que havia sido...    
Depois, constrangedor silêncio
Macio olor de hidratante seu
Soluço profundo...
Depois de duas garrafas de cachaça
Amaram e se mataram um ao outro.   

Patrik Aprígio

A Mentira

Estavam naquela roda de amigos onde a prosa é longa e cheia de gargalhadas. E como sempre popular, a “mentira” é a que não falta, jazia ali, perambulando aqui e acolá, com muito entusiasmo.
- Ouçam! – disse Pedro. Na fazenda do...
- Ih!!! Responderam todos. Lá vem mentira na certa!
- Deixe-o continuar!  – cochichou Diogo. Se é tão esperto assim, veremos.
- Não isso aconteceu realmente! – exclamou Pedro. Foi um fato real contado pelos...
- Tudo bem! – todos responderam. Continue a sua história.
        - Ok – disse Pedro. Como eu já dizia, na fazendo do meu tataravô não havia água, e isso é uma ruína para uma imensa fazenda. Mas para a inteligência humana não há muros. Como por aquelas bandas do sertão...
- Que bandas!? – perguntou André.
- Ah... não interessa, apenas ouça – disse Pedro - Pois bem....como lá as fazendas são vizinhas, meu tataravô, entrou em um acordo com um fazendeiro vizinho...que não me lembro qual foi o trato...mas isso não interessa. Então como o vizinho fazendeiro, por mãos divinas fora abençoado com um lindo riacho, que cortava suas imensas terras, meu tataravô, com o acordo feito, construiu uma longa e imensa bica em que a água corria livremente, desembocando da terra vizinha e caindo nas terras do meu saudoso tataravô. Com essa criatividade e inteligência obtiveram água, e dizem que até hoje ainda existem água lá na fazenda...
- Mas e a bica? – perguntaram todos. Ainda está lá?
- Pois é... - respondeu Pedro. - Agora vocês entenderão o mistério... Como toda madeira um dia acaba, a bica apodreceu e caiu. Dizem que, como a água já havia acostumada a sua corrente por muito tempo, de forma misteriosa continuou a sua corrente pelo ar... sem cair ao chão.
- Ouçam! Ouçam! – interferiu Diogo - Aconteceu quase o mesmo incidente... Meu avô contava que o seu pai comprara uma fazenda também. Mas com um tanto azar a fazenda estava suja, e por esta razão contrataram um caboclo para limpá-la. O tal indivíduo era meio zanzão, sabe, não girava bem da cabeça. Ele começou a limpar os campos usando uma enorme foice, cortava aqui, cortava ali e assim prosseguia o seu trabalho...
- Nossa!!! – interferiu André. - Com uma enorme foice, ele devia ser um gigante!!!
- Sim! – continuou Diogo. - E olha que justamente onde ele limpava habitava um cavalo selvagem... e como o mato estava tão alto, em um descuido, sem perceber...Plof!!! Cortou o pescoço do pobre animal!!! Em meios aos apuros, despiu-se do cinto e tentou amarrar a cabeça do cavalo ao pescoço, esperançoso no ditado que se dizia por lá: “com o sangue quente, ainda é possível colar”. Imaginem que o atrapalhão se deu bem, isso de fato aconteceu, mas em meios aos apuros a cabeça colou-se errado, ficando com a cabeça para cima!
- Ahahah!!! – riram-se todos.
- Deve ter ficado o máximo – disse André. - Imaginem um cavalo com a boca pra cima?!Um monstro!
- Mas como será que ele pastava? – perguntou Pedro.
- Ah, ele se alimentava das folhas e ramos das árvores! – respondeu Diogo.
- Ah sim! Isso ficou fácil para ele – disse André
- E a água? – perguntou Pedro. Ele talvez esperava a chuva para saciar-se da sede...mas  se não chovesse? Pobre animal!
- Simples! Simples! – determinou Diogo. - Ele saciava a sede através da água da fazenda do seu tataravô... a água que havia acostumada a sua corrente pelo ar!

Aldecy Fernandes - Kadiwéu

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Apenas à Noite

            Ontem à noite ele sonhou com ela. Seus corpos estavam abatidos por mentiras naquela cama. Ela, uma prostituta, jovem e sem sentimentos. Ele, marido de uma mulher que não suporta mais.
        - Não sei como isso foi acontecer, cara. Eu estava apenas vagando pela cidade depois de uma briga com a Megy. De repente, parado no semáforo, eu vi ela. Não consegui pensar muito, apenas a desejei.     
- Você precisa tomar cuidado. Prostitutas são criaturas traiçoeiras.
- Cala essa boca e me dá um cigarro. Eu não amo ela. É apenas sexo, desejo.
- Já chega de whysky, vamos pra casa. Não quero que você comece a chorar por causa de uma puta.
        Sua cabeça está confusa, ele diz que não ama a garota, mas tem certeza de que isso é mentira. Chega em casa. Chegar em casa já é um motivo para uma discussão e ele não aguenta mais isso. Sai e deixa Megy falando sozinha.
        Dirigindo pela cidade chega ao ponto em que a jovem prostituta espera por clientes. Ela entra no carro e logo começam a conversar. O caminho até o motel não é longo. Entram no quarto, tiram as roupas e deitam-se na cama. Agem como se o amanhã não fosse existir.
        O primeiro beijo da noite, aquele gosto tão familiar. Gosto de tristeza. Tristeza por tê-la apenas à noite. Ela o beija com ternura, mas é uma ternura profissional.
- Logo eu estarei sozinho, ainda não sei dizer quando.
        Ela permanece sem emoção. Conclui que não precisa dela, mas sabe que isso é mentira. Ela é perfeita para ele: Segura-o firme enquanto o orgasmo faz seu corpo tremer, beija como se fosse esposa apaixonada, diz o que ele precisa ouvir... mas é apenas à noite.
        Após se recomporem ele paga pelo amor de uma noite. Dirigindo pelo caminho que leva-o para casa pensa que essa será a ultima vez que se deitará com ela, mas sabe que isso é mentira.
        Algumas semanas depois a prostituta recebe uma carta. Fica curiosa. “Como aquele cara descobriu meu endereço?”. Já é noite e ela está se arrumando para ir ao trabalho. Senta-se nua na cama, uma toalha enrolada em sua cabeça abafa um perfume delicado. Seus seios são rijos, brancos, perfeitos. As pernas são longas e bem definidas. Seu rosto configura uma inocência que nunca denunciaria quem ela realmente é.
        Começa a ler a carta. Aquilo não faz sentido. Carta de amor é ocupação de adolescentes imaturos e apaixonados. Está vestindo uma calcinha quando termina de ler a carta, coloca a folha sobre a cama, pega um isqueiro e um cigarro em sua bolsa. Lê mais uma vez a carta e depois queima a folha. Ama aquele homem, como nunca amou ninguém... mas apenas à noite.

Filipe Lemos