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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Voraz

Esse espelho não para de ficar me olhando!
U-hu... nem to vendo........
Mas não cansa de ficar me olhando!
Prestar atenção na paisagem...
Que ta vendo de tão importante por aqui?
Eita! Não para de olhar!
Gostou do que viu?
Vamos encarar essa...
Averiguando de pertinho...
Slupt!!!
Tava a perigo, hein meu?!?

Marcelo de Paula

Música do Dia.

Beat the Devil's Tatoo - Black Rebel Motorcycle Club, por Filipe Lemos.

Nos Braços da América

    Era uma noite fria de 1981. Uma noite tão escura que as estrelas pareciam estar em luto. Roosier sabia que não devia ter atendido o convite para aquela reunião de reencontro de veteranos de guerra. Encontrar alguns conhecidos e desconhecidos foi sua intenção, mas não imaginava levar um golpe tão bruto em sua alma.
    Os horrores do Vietnã durante muito tempo deixaram de visitar seus sonhos. Houve ocasiões que até mesmo acordado via aquelas cenas, como se tivesse voltado ao passado, vivas, tão reais quanto naquele tempo, assim como a voz de seu comandante também. Com muito custo havia se livrado de toda essa maldição. Mas naquela noite todas as lembranças voltaram inconvenientemente para o lugar que possuíam em sua mente.
   Deparou-se com alguns marines com quem havia servido em 61, precisamente em outubro de 1961, quando o presidente Kennedy havia ordenado o envio de um Esquadrão Farmgate da Força Aérea para o sul do Vietnã. Doze aviões. Doze malditos aviões!
    Ver aqueles caras depois de anos... Deus do Céu! Alguns deles cingindo muletas, outros em cadeiras de rodas, outros beirando a demência – todos tributários da piedade de suas esposas e filhos. Aquilo foi demais para Roosier. Parecia que via as bombas explodindo novamente ao redor enquanto seus companheiros rastejam e clamam pela vida que queriam ter, a vida que haviam entregado para o exército.
   Não aguentou. Foi embora. Estava tão perturbado e desorientado que esqueceu-se de que havia ido de carro, foi caminhando para casa. A Guerra: Plante uma semente demoníaca e verá crescer uma flor em chamas. Era assim que Roosier entendia a guerra agora.
  Pelos becos daquela cidade tranquila Roosier caminhava, naquele momento onde as ruas não possuem nome algum; as ruas de sua memória onde os anjos famosos não ousam passar. Cada passo era um tiro dado pela memória contra sua alma. Voltou a ouvir a voz de seu comandante que dizia: “Fogo!”. Ouvia o peso dos aviões rasgando e baleando o céu azul. “Fogo!”. Os ecos das faces do medo correndo apavorados vale abaixo.
    Chegar em casa parecia impossível. Cada passo um tiro. “Fogo!”. Caiu na calçada. Seus lábios se moviam mas não conseguia falar. Acima de sua cabeça, caído, podia ver o brilho daqueles prédios cheios de amantes e mentiras, de lares despedaçados. Sentia-se como um daqueles sonhadores que morrem só para ver o que há do outro lado.
   Conseguiu se levantar. Depois de muitos passos e tiros o caminho havia encontrado seu fim. A escadaria leva-o para o primeiro andar. Suas mãos viram a chave e lentamente destrancam a porta. Lá fora um homem respira através de seu saxofone e pelas paredes ouvimos a cidade rosnar. Lá fora onde a chuva ensaia uma visita. Lá fora onde mulheres e crianças correm para os braços da América.

Filipe Lemos

Percepção Aguçada

    Ele quer brigar! Sim, ele quer. Olhos vermelhos para feras indomáveis. Ele me chama.
    Um copo de batida, para quem pede leve, um copo de whisky para o refinado e o meu, oras, o meu é de água ardente! Ele do outro lado do galpão, bate o copo uma, duas, três vezes. Ele me encara. Vamos! Ele se levanta e vai embora, pisando com força. Me levanto e sigo atrás dele. Corro sem correr. Ando querendo correr. Ele se distribui em 3 em plena noite. Eu não me divido. Me sinto puxado de um lado para o outro. Querem me derrubar. Me empurram e puxam com força e então tropeço no fio da calçada gelada. Eles são muitos e eu sou um em uma escura rua vazia. Nenhum movimento, mas eles continuam querendo me derrubar. O homem se volta até mim e ameaça: “Você me seguiu?!”
    Formigamento sinto surgir de minhas entradas. Tremo. Roça-me o abdômen e respondo às coceiras com uma intensa gargalhada, sonora. Ele calcula a distância entre nós. Não há muito espaço. Covarde, tenta correr ou talvez busca uma nova tática para me matar. Suas pernas queriam brigar comigo, por isso logo se mobilizam. Ele treme. Deve ser sua ira. Ele sua, deve ser por raiva. Pede “Por favor, não me mate!”. Não, ele quer morrer. Ele me persegue, eu o persigo. Não temo ninguém. Estico o braço, estendo o revólver que tinha dentro do bolso. Com um só tiro, arranco meu assassino deste mundo. Ele busca falar, fugir. Não pode. A morte já estava ali, no escuro, com sua imensa capa negra a arrastar no chão. A noite por si só é a morte. Sua capa escura leva o sol e o suspiro azul do céu. Mas logo este ressuscita. Já aquele homem não ressuscitara. A morte não o apanha no chão. Ela me observa, incrédula. Apenas me defendi!
    Busca voltar para casa, mas não me encontro. Entre tantas ruas mal iluminadas, me encontrei em uma, com apenas um poste. Encontro outro homem. Infeliz, ele me observa. Quer permanecer contra a parede. Sim, ele tem medo! Me imita, quem sabe para simpatizar. Tudo em vão. Mostro minha arma. Ele me mostra a dele. Ora, por que é capaz de mostrar sua arma e não mostrar seus traços?! É covarde.
    -Você que é covarde! – diz, lendo minha mente.
   -Que audácia! Falar isso para mim! – respondo – Já fui capaz até de matar!
    A morte chega novamente. Senta do outro lado da calçada e observa-me, sorridente. Já ao homem que tenho contra a parede, lhe ofereço minha coragem: aponto e atiro. Contudo, ele não morre.
    -Só morro quando você morrer, tolo! – me diz.
   -Então, que assim se faça – aponto a pistola diretamente contra o peito, ou ao que me parecia, uma vez que ainda me sentia puxado e empurrado para os lados. De repente, essas mesmas mãos que me governavam, me derrubam no asfalto. Mas o homem também cai. Ambos caímos. E a morte finalmente se levanta e me dá sua mão, sorrindo, simpática, como uma mãe que acolhe o filho... Contudo, ela queria brigar... 

Ana Cecília.

Música do Dia.

Jump - Madonna, por Thiago Oliveira.

Morte

    Flores. As mesmas flores que tão precocemente são arrancadas dos campos virgens e orvalhados, agora permanecem imóveis e secos sobre a madeira límpida. Flores. Que de tão intactas, resplandecem sua imaturidade...Por que, oras, por que arrancá-las? Que de tão novas morrem, nas mãos impróprias dos homens e não às mãos em que estas pertencem: as mãos do tempo. Flores intactas? Não, já consigo ver em suas pétalas, rachaduras impróprias, invisíveis aos olhos humanos. Já sem vida, murcham, morrem.
Sangue.
    O sangue tão vinho, tão vívido em veias alheias, tão plácido e vivaz. O sangue de irmãos, homens, nada mais é do que uma herança. Caim e Abel: irmãos....vítima e assassino. Por que, oras meu Deus, por que matar Mineirinho? O homem mata seus iguais por medo. O medo é o grande monstro do homem. Matar alguém, supostamente assassino, seria justiça? 13 tiros, sem piedade. 13 tiros e nada menos. Bastaria um para matar, dois massacrariam alguém, três já exterminariam sua alma. Maior é o assassino que mata por vingança do que por medo.
    Sangue e flores, ambos se fundem. Um sobre o outro.

Ana Cecília.

O Veneziar

    Águia. Não ficou boa.
  Macaco? Era o que Duda queria. Leão foi a escolha da maioria, mas...não. Este baile de máscaras me atormenta a vida.
    E meus olhos trancados na gaveta.
    Mamãe queria coruja; ela sabe escolher. Eu não. Ou talvez ainda não.
   E se pegasse meus olhos na gaveta? Não. Libertá–los quebraria este espelho e faria Pandora sentir menos remorso.
    Vou de coruja mesmo. Existir ainda é melhor que ser.

Ana Esther.