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terça-feira, 6 de setembro de 2011

Dois Contos, Um Filme, Um Teatro

    "Estava em tudo e em lugar nenhum, e gritava: NÃO QUERO MAIS SER EU." Assim, subitamente, Maria Lúcia acordara de um sonho que não era sonho, mas sim uma daquelas reflexões em que nós perdemos na distinção do que é real e o que é pensamento.
    Levantou-se, agora observava um espelho e pensava: NÃO QUERO MAIS SER EU, essa afirmação não saia-lhe da cabeça. Por um instante lhe ocorreu a impressão de ter ouvido um resposta: QUAL EU?
    Espantada, prende seu olhar fixamente ao espelho, e num tombo de lucidez, se perde novamente em pensamentos, perdida, sem rumo, sem chão, num plano complexo, complexado. QUAL EU? Existia mais de um  eu em um só ser humano? Não sabia de fato responder a essa questão, mas no momento beirava a dúvida por se dizer que sim.
    E se realmente houvesse de ter que ser sim essa resposta?
  Maria Lúcia aceitou o sim, não quero mais ser eu, esse eu que todo mundo vê, que todo mundo sente, que todos presenciam, mas que no fundo não sou eu.
    -Vontade de viver- era o que soava do espelho; Maria Lúcia queria viver o eu que tem como garantia aproveitar o sublime que a vida nos oferece, para que na hora de sua morte não viesse-lhe a cabeça a ideia de que não tinha vivido. E repetia Maria Lúcia:
    -Quero largar tudo o que faço para fazer o que quero, quero largar tudo o que faço para fazer o que quero; quero fazer tudo o que quero e largar tudo o que faço. Eu quero largar tudo o que faço?
    E nesse exato momento lhe veio a dúvida de qual eu era melhor para se ser, o eu que vivia na comodidade da vida como ela é, ou o eu da vontade de viver, o eu livre sem medo do ridículo; a dúvida era grande, densa, pesava-lhe em suas costas. E vontade de viver gritava por dentro: DEIXE-ME
SER, Maria Lúcia, me acolha em seus braços, dê-me forças para existir, DEIXE-ME SER, Maria Lúcia.
    Ainda com o olhar fixo no espelho, não estava compenetrada de que a vontade de viver era a melhor escolha, mas pensava deliciosamente como seria fazer tudo o que desejava, e deixar de ser esse eu que não era eu. Contudo, vinha a dúvida, esta existia. A dúvida era maior que a vontade de viver, a dúvida era maior, mesmo que de algum modo, a revelia dela lhe tivesse passado pela cabeça a vontade de viver, já era tarde, a comodidade talvez lhe caísse bem, era tarde, apagava a luz, não se via mais o espelho. 
Maria Lúcia era um só eu e dormia.

Camila Rocha

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Morena

    Morena, pele manchada, 45 anos, obesa. É o que Maria via ao encarar o espelho do elevador do apartamento minúsculo onde vivia. A ela seguia o marido. Ele trazia todas as sacolas do supermercado, a carteira com os cartões e dinheiro vivo, a chave do carro, e a satisfação redentora de ser o esposo que nada deixava faltar. Consigo, Maria só levava a saudade de um filho que morava longe e a roupa do corpo, acrescidos, esporadicamente, do dever de pressionar o número 3 que não levava ao terceiro andar, senão o segundo. Apartamento 22. Maria se esquecera, deu meia volta: o marido era quem carregava as chaves da porta: deu-lhe passagem. Arriadas as bolsas, João rumava o quarto; da cozinha, vinte passos eram o bastante para alcançar a recamara; uma suíte bem da arrumadinha. Lá ele se barbearia, tomaria seu banho cronometrado, e era este o tempo que Maria dispunha para fazer uma breve chamada ao único rebento que a deixara a fim de cursar faculdade. Sacou do telefone e discou os números bem depressinha.
    - Almoçou hoje? O que vai jantar?
   Maria queria falar mais. Vitor também. Mas não podia; ela devia fazer as perguntas certas, canalizar as emoções e privar-se de tantas outras para que pudesse ser breve e saber as respostas que lhe acalmariam o coração: todas que afirmassem o bem-estar e sobrevivência do filho.
    É que a saudade era tanta, fazia tão frio por aqueles dias, um tempo feio, de manhã era uma neblina só! Falou mais do que devia. João estava de folga, não houve necessidade de barbear-se. A porta abriu-se e Maria teve de dar um tchau simpático. Mal sabia Vitor pelo que sua mãe estaria prestes a passar.
    Era como se João estivesse escarnecendo-a. Aquelas palavras doíam tanto, mas nem dava para notar aos olhos de quem via e ouvia. Estes, caso notassem, poderiam se perguntar: “- Por que ela se casou com esse crápula?”. Ora, Maria nunca foi burra, só religiosa. João era o homem que toda e qualquer mulher pedira a Deus! Altura mediana, bem peludo, um par de pés que não calçavam menos que 42, um sorriso bonito – recém sarado de uma gengivite -, soldado exemplar do serviço militar, bom filho duma mãe barraqueira de genes fracos, pernas esguias, tímido, sendo o mais preponderante, todavia, o fato de que ele era desejado por metade do bairro. Há 20 anos! No momento, era o homem que lhe deferia desaforos. Ah! Algo dizia que era um erro. Maria foi quem recheou todas aquelas 3 leitoas e fritou mais de uma renca de croquetes no dia do próprio casório: os convidados de mais tarde, além de notarem o cheiro de óleo saturado no cangote da noiva, garantiram a excelência dos canapés. Os anos foram se passando e Maria pôde conhecer o homem com quem se casara: um ignorante-repressor-machista-agressor-de-mulheres que beirava a insanidade; o mesmo que, quando aos seis meses de gestação, lhe tapou boca e nariz, dada a janela aberta. Quase louco porque falava demais, detinha umas concepções próprias bem estapafúrdias, vivia num mundo só seu. Louco por quase ter havido matado o próprio filho ainda no ventre da esposa; fora a vez que, como uma besta, inclinou a cama num repente, e fez rolar Maria contra a parede. Para evitar tais aborrecimentos, Maria teve de aprender, bem como todos ao redor, a conviver com o marido: calou-se.
    Já havia pensado num divórcio, sim, claro! Mas quando Vitor completou seu primeiro mês, Maria converteu-se e, desde então, João jamais a tocou novamente. Havia esperança! No entanto, junta-se a conversão ao silencio da esposa e nem necessidade tinha mesmo João de agredi-la. Además, “a mulher sábia edifica a sua casa”, e nesse intento, Maria resignou-se a trancar-se em sua redoma, seguir os passos e vontades do esposo, e privar-se duma vida. Um dia, já o Plano Real vigorando havia muito, lhe perguntaram quanto custava uma de suas telas; “ – Sessenta cruzeiros. Como é? Ce erre sifrão? ”. Disse e repito: Maria não era burra, só teve de afastar-se de uma realidade impossível; tudo para evitar confusões, oferecer um lar saudável ao filho e salvar o casamento. Estavam condenados a viver juntos! João teria de traí-la para que tivesse motivos justos e reconhecidos por Deus para divorciar-se.
    Não bastou chamá-la inconsequente. João reverberava, expansivo que só, com o telefone numa das mãos:
    - Larga do pé do garoto! Você já sabe que ele está bem, não é nenhum doente mental. Dinheiro? Todo o mês deposito os 400 reais que ele necessita, lhe pago o aluguel, que por sinal é muito mais caro do que o nosso, gás, telefone, internet, luz, e até as calças! Só pra que estude. Pra não dizer que não estou dando apoio. Olha pra mim! Nem o colegial cheguei a completar e ganho muito mais do que a gente da profissão dele. Burro sim, isso ele pode ser, inconsequente não! A isso ele não puxou você. Com que dinheiro você acha que eu vou pagar tudo isso se a conta do nosso telefone, nosso, vier lá nas alturas? Você fala feito uma cacatua! Pra quê essa necessidade infantil de conversar com a sua mãe e as suas irmãs toda semana? Vê se eles ligam pra você. Eles ligam, Maria? Me responde, Maria, ligam? Estou te fazendo uma pergunta! Você é perigosa, perigosa, menina! Sabe me irritar: enquanto falo com você, você não dá nem um pio, nem sequer olha pra mim. Olha pra mim, Maria, olha pra mim! Do que adianta economizar no banho; se lava feito um gato, aí vem pra sala e me faz ligações interurbanas que são um assalto, e solta os cachorros em cima do meu salário. Eu trabalho pra conseguir isso tudo, trabalho feito um cão! Tudo pra você ficar em casa, poder descansar, te dar a vida que toda mulher pede ao Pai Santíssimo. Precisamos economizar! E é só por isso que não te mandei pra um médico tirar toda essa gordura sobrando na barriga, nas pernas, nem paguei cremes caros pra clarear essa pele da cara, nem pra arrumarem esses seus dentes! O marido da Cléia paga, é? Hum, que maridão! Te disse: se não estiver satisfeita, vai embora, não vou te impedir. Vá viver com seus pais e suas irmãs, cuidar dos filhos delas! Quer dinheiro? Não posso dar! Só quando me aposentar, e olhe lá. Tenho um filho fora da cidade pra sustentar, pra ver se se encaminha na vida. Eu e você... Eu e você já somos velhos, é o que nos resta mesmo: esperar a velhice, e que o Vitor tenha compaixão de nós, considere toda a fortuna que gastei com ele, e não nos interne num asilo em Gramacho, mas sim que nos dê uma vida decente, que dê um jeito em você. Engraçado... foi só se casar comigo que virou o que virou. Claro, como sempre, vai me dizer que a vida de empregada doméstica no Rio era muito mais feliz. Ingrata! Quer voltar a trabalhar? Quer ganhar dinheiro? Pegue um ônibus e vá de reto ao Leblon: quem sabe sua ex-patroa, a de 20 anos atrás, não lhe dê o emprego de volta. Isso se ela te reconhecer! Ingrata! Aposto como se engraçava com aqueles ricassos que frequentavam a casa onde você trabalhava!
    Maria rompeu. Do jeito dela. João havia falado sobre esses homens algumas tantas vezes, ela estava acostumada, só aconteceu de perder o sentido ter que se submeter a tais ofensas. Era mulher direita, tinha princípios saudáveis. Levantou-se e rumou a cozinha, lá, numa sacola plástica, ela juntava alguns biscoitos, balas, uma banana, maçã, duas peras, e enchia uma garrafinha de água.
    - Olha pra mim, Maria. O que tá fazendo? Falei uma verdade, não é? Era disso que você estava precisando, de umas verdades bem ditas. Duvido se para os engravatados você não era puro amor. Nem precisa ir tão longe: o marido da patroa, aquele velho! Claro, sempre andava de roupa bonita, magrinha, corpo de modelo, levava os filhos dele pra caminhar na praia. Sempre chique. Com que dinheiro, hein? Com que dinheiro, se você dava grande parte a sua família? Diz, Maria, diz.
    Maria virou-se e lhe pregou uma bofetada. Outra, agora, com as costas da mão. Mais uma. Ah! João não tolerava ser enfrentado: caminhou a procura de uma pistola que guardara em cima do guarda-roupa e que há anos não mexia. Ao que Maria lhe surge à porta do quarto.
    - Você vem com o angu pronto, e minha polenta já está frita! Doei a arma numa daquelas campanhas de desarmamento. Ia me matar? Ia atirar em mim, João, estou lhe perguntando! Tenho certeza que sim. Você e sua mãe são
farinha do mesmo saco. Lembro de quando sua tia Joana empurrou o pobre do Afonso ribanceira a baixo seguindo conselhos da megera. Estou saindo de casa!
    Maria caminhava pelo corredor de 20 passos da residência, munida de sua sacolinha, e era seguida por João, que falava e falava.
    - Vai mesmo seguir os meus conselhos? Será que ainda consegue lembrar do ônibus que tinha de pegar pra chegar ao Leblon? A vida com os ricassos fedorentos era muito mais gostosa, verdade, Maria? Vai poder andar por toda a Ipanema, conhecer Paris, Afeganistão, sei lá o quê! Você se arrepende de ter recusado o convite pra ir trabalhar pra sua patroa lá na Europa? Eles eram ricos porque tinham televisão! Eu também tenho, também sou rico. – Maria já havia dado as duas voltas da chave na porta e, quando alcançava a maçaneta, João disparou: - Se passar por esta porta, Maria, você estará traindo não só a mim, mas também ao nosso filho.
    Maria largou a maçaneta. Virou-se. Deu uns quantos passos e pôs-se diante do marido, ao lado do aparador. Estendeu a mão, abriu uma das gavetas enquanto mirava os olhos de João, alcançou a carteira de motorista recém tirada, e proferiu tais palavras:
    - Eu sei sim dirigir, e Vitor não é seu filho!

Thiago Alcebíades

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Rápido pensamento antes de uma despedida


    Até mais. Lembro-me apenas dessas últimas palavras. Já não o olhava, seguia o caminho para casa. Por segundos pensei em me virar, encará-lo e dizer... (qualquer coisa que ofendesse). Havia perdido um domingo junto dos meus amigos - o último antes de voltar para a cidade onde vivia - para encontrá-lo e tentar. Tentar o quê? Os meses que se passaram não me trouxeram nenhum ensinamento? A resposta era afirmativa, minha posição diante de tudo era de uma negativa sutil, quase sonhadora. Sabemos da verdade, tomamos gostinho pelo que dói, pois sonhamos com algum tipo de remédio que valha por todos os dias de agonia. E dor mesmo é aquela quando percebemos. Perceber e isso basta. A percepção é a beira de um precipício. Eu estava lá, em queda livre. Só não sei como escorreguei. Há de existir algo que nos dê um empurrão.
    Não me virar foi prudente. Talvez eu já soubesse, um dia ele perceberia que suas certezas eram incertezas, já não sabia o que queria, estava totalmente coberto de infeliz poeira e, sobretudo, o tempo passou rápido demais. Os dias, os meses, os anos. Chicotes do tempo. Água fria em nossa cara. Só nunca pensei que tudo que estimei e julguei ser mais valiosos fosse de areia. Um vento e estava tudo desfeito. Acreditava. Finalmente tinha me encontrado em um outro, ainda negando que nos encontramos quando os dois estavam perdidos. Somos bússolas quebradas, todos nós. Contudo negamos e fingimos ser melhor andar em uma linha atribuída como sensata, perdemos a oportunidade de entrar no olho do furacão e irmos para o desconhecido. Sempre vestiremos sapatos de cristal e ao bater deles voltaremos para casa. Aquele dia com ele me mostrou que tudo mais era não. Não continuaríamos. Não pertencemos. Não. Eu não te amo. Então bati os meus.
    Até mais não, Adeus. Eu disse adeus. E caminhei para pegar o ônibus. A primeira pessoa a me ter e a se entregar a mim, ainda que rapidamente, estava diminuindo de tamanho à medida que dava meus passos. Nunca o beijei novamente, nunca viajamos, casamos ou tivemos filhos, como planejamos. Ainda assim isso não era de tudo ruim. Eu sabia. Em seus beijos, viagens, em seu casamento e em momentos com seus filhos, ele se lembrará de mim. E um dia, quem sabe, perceberá.


Matheus Torres

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Dolores

Cria dores
Trai dores
Mata dores
Recria dores
Trai dores
Mata dores
Recria dores
                       ............           Endo senfim

Camila Rocha

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Amanhã e amanhã e amanhã e amanhã...


Este texto é uma simples homenagem à banda Alexisonfire, que encerrou suas atividades como grupo recentemente.
Os trechos das cartas e o diálogo ao telefone são traduções livres de trechos das músicas “No Transitory” e “Sharks and Danger”, ambas fazem parte do álbum “Watch Out!” - Distort Entertainment (2004).


Há quem diga que viver é assumir diferentes papéis constantemente, como se a vida se desenrolasse como uma grande peça de teatro e viver não fosse mera encenação. Muitos desejariam que viver fosse fácil assim, ao menos existiria a vantagem de ensaiar as ações antes de se apresentar. Talvez seja muita presunção dizer que é fácil a arte de encenar. Quão difícil deve ser impedir que um personagem não assuma o lugar de quem realmente somos.
Certa vez um homem – sim, alguém como nós – por ter de encenar tantos personagens quase deixou de ser quem realmente foi um dia.
Após varias semanas de insônia castigante aquela fora uma noite em que finalmente havia conseguido a proeza de dormir e ao acordar na manhã de domingo pode ver sobre o tapete da porta uma carta. Assim estava escrito:

“Então isso é o que chamam de outra noite interminável. Tão cansado de acreditar se isso está certo ou errado, eu acho que esta causa está perdida, eu gostaria de apenas conseguir dormir. Sinto-me como um tipo de sombra, apenas um escravo das semanas. Se tudo der errado, se isso é apenas mais uma noite interminável você sabe que ali sempre haverá amanhã e amanhã e amanhã e amanhã...

Atenciosamente, Parte-de-você.”

A perplexidade envolveu os pensamentos daquele homem profundamente. ”Quem escreveu a carta?” “O que significam todas essas palavras?” “Quem será parte-de-você? Uma Mulher?” “Sem chance.” E o domingo se foi como deveria ir: Lentamente. Dormir mais uma noite foi uma conquista e a semana seguiu vitoriosa em noites bem dormidas. No final de semana decidiu responder a carta que havia recebido. Escreveu. Ao terminar deparou-se com um problema, não havia remetente na carta que recebeu, simplesmente fora jogada por baixo da porta (assim imaginava). Decidiu deixar a carta no lado de fora de sua porta, no chão. “Quem sabe alguém realmente espere uma resposta.” – Pensou.
Lá estava outra carta, coincidentemente no domingo seguinte. E a correspondência entre eles prosseguia de forma progressiva, em nenhum momento descobriu quem era Parte-de-você. Em uma das cartas ao desconhecido escreveu:

“Encontro-me em um constante estado de estar prestes a ser feito em pedaços. Então por que eu já não sinto nada? Talvez a ansiedade de viver essa vida esteja me sufocando, como se me sufocasse com arames farpados a ponto de me fazer perder os sentidos, os sentimentos, todas essas coisas e...”

As noites de insônia intercalavam-se nos dias da semana. Desde o inicio efetivo do processo de correspondência as noites de sono rotineiras haviam sido interrompidas, em contrapartida, o fluxo das correspondências crescia constantemente. Acreditava que aquilo realmente estava lhe fazendo bem, nunca, em sua pobre vida, pôde confiar em alguém. Sentia-se muito bem por ter alguém em que pudesse confessar suas inquietações.
Tudo parecia correr bem após alguns meses. Em um sábado qualquer decidiu fazer uma limpeza em seu apartamento. Começando pelo quarto, onde passava a maioria do tempo. Move algumas coisas ali, outras vão para o lixo perto da escrivaninha, algumas pra dentro do armário ou para baixo da cama... Foi quando descobriu um saco muito bem camuflado embaixo da cama. Abriu. Não pode acreditar no que via. Eram as cartas que respondia ao desconhecido. “Mas como, como podiam estar ali? Impossível!” Pensou em contar aquilo para alguém. Mas quem? Era um sujeito solitário, e mesmo que existisse alguém para ouvi-lo, quem acreditaria?
Por não entender e não se conformar com que se passava parou de escrever e já não dormia mais como antes. Ou já não escrevia mais por não conseguir dormir? Não sabia mais. Em uma manhã, fruto de uma noite privilegiada por raras horas de um breve cochilo, viu sobre o tapete outra carta. “Depois de tanto tempo?”

“Agora que todo o seu mundo se foi como se estivesse em chamas, essa noite continua interminável. Você pensa que ainda está em segurança? Parece que tudo deu errado, nós fomos descobertos, mas desta vez não haverá amanhã e amanhã e amanhã e amanhã...

Parte-de-você.”

        Decidiu não responder já que tudo não passava de um truque que ainda não sabia como funcionava. Na manhã seguinte lá estava outra carta, a última, que dizia:

        “Como a vida que está presa junto a mim eu pego tudo o que eu posso. Você nunca foi alguém para um confronto, mas agora tudo repousa em tuas mãos. Adeus.

Parte-de-você.”
        E assim, em vão, ele respondeu:

        “Quem estará aqui para dizer quão estúpido eu sou? Quem me protegerá de ser açoitado. Ansiedade me sufoca com arames farpados!”

        Ao terminar de escrever conseguiu entender o que se passou durante todo aquele tempo. Tudo fazia sentido agora (era o que acreditava).
        Dentro do escritório o som é de muitas pessoas falando nos telefones ao mesmo tempo em que os dedos batem nas teclas. Um telefone toca.
        - Psiquiatria St. Catherines, Linha de ajuda . Nancy, falando.
       - Estou certo de que isso soará incrivelmente ridículo e eu... Eu não espero que alguém acredite em tudo isso. Eu... Por um tempo venho me correspondendo com a minha sanidade e eu... Eu sinceramente tenho a sensação de estar perdendo o interesse no processo de escrever as cartas. As partes das cartas estão ficando cada vez mais curtas e curtas e eu... A coisa toda me deixa realmente preocupado. Eu só quero demonstrar que grande problema isso é.
        - Certo.
      - Eu meio que tenho esse... hábito terrível de ficar fazendo perguntas estúpidas a mim mesmo, como: e se... existir em meu corpo um ponto que eu possa tocar e fazer meu coração parar de bater? E se lá fora... existir uma bala certeira que atravesse minha janela e me atinja? Como: e se... e se existir um enorme e inevitável cometa vindo em nossa direção que destruirá a terra e todos nós? Como eu posso me livrar de todas essas perguntas se eu não tenho para quem fazê-las? Quem estará aqui? Por que... Quem estará lá... No hospital? Que irá me dizer que tudo isso é bobagem... É um sonho? Apenas um sonho. Isso não é uma piada. E eu... Eu nunca vou dormir?!

Filipe Lemos.

Fotografia.


      “Existia o mundo. Existia a vida. Existia Vovó Izilda.
    Vovó – ou Izilda, como preferir – tinha rugas, experiência, amor, uma aliança de viuvez guardada, cinco filhos, dezessete netos, quatro bisnetos e um câncer que acabara de descobrir em uma consulta médica. Ela, mais convicta do que quando fez seu primeiro bolo, resolveu gastar seus findos fôlegos se divertindo.
     Primeiro foi fazer caridade. Doou toda sua pequena quase fortuna guardada com esmero no Banco Central à um lar para dependentes químicos. Mas não foi o bastante, precisava de algo mais radical. Sua próxima parada foi à vendinha do Zé Tonho. Comprou um saco de milho, foi até a praça e tentou alimentar os pombos. No fim, alimentou mesmo foi uma família sem tetos que estava por ali. Mas não foi o suficiente, ela precisava de adrenalina. Já era quase noite e, depois de quebrar sua bengalinha em um buraco na calçada, se deparou com um parque de diversões aberto. Foi então que uma luz brilhou. O sonho de infância de Vovó Izilda era dar uma volta na Roda Gigante. O que poderia dar mais adrenalina que isso?! Pegou seu ultimo trocadinho e comprou uma ficha. E lá foi ela rumo ao brinquedo dos sonhos. Antes de completar a 2° volta, a roda gigante caprichosa quebrou com Vovó Izilda presa no mais alto cume; abaixo dela, assaltantes, como que teletransportados, surgiram com armas e reféns. Vovó mal acreditou na quantidade de dinheiro que estava sendo roubada daquele lugar. Como um parque de diversões tinha tudo aquilo? Porém, mantenham a calma amigos, a história não termina por aqui. De repente, e não mais que de repente, a super heroína chegou voando mais rápida que uma bala, decapitou e esquartejou os bandidos com seu machado da justiça, foi ovacionada pelos pobres mortais e sumiu; ainda, não mais que ainda, mais rápida que uma bala. Foi então que aquela musiquinha de parque de diversões sabor infância retornou aos alto falantes e tudo voltou ao normal. A roda gigante, que voltara a funcionar, deixou Vovó Izilda partir; esta, que por sua vez enjoada com todos aqueles 360°, apenas desejava morrer em paz.”
    
    - Mamãe, quer que eu leia outra história para você dormir?

Ana Esther

terça-feira, 16 de agosto de 2011