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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Fotografia.


      “Existia o mundo. Existia a vida. Existia Vovó Izilda.
    Vovó – ou Izilda, como preferir – tinha rugas, experiência, amor, uma aliança de viuvez guardada, cinco filhos, dezessete netos, quatro bisnetos e um câncer que acabara de descobrir em uma consulta médica. Ela, mais convicta do que quando fez seu primeiro bolo, resolveu gastar seus findos fôlegos se divertindo.
     Primeiro foi fazer caridade. Doou toda sua pequena quase fortuna guardada com esmero no Banco Central à um lar para dependentes químicos. Mas não foi o bastante, precisava de algo mais radical. Sua próxima parada foi à vendinha do Zé Tonho. Comprou um saco de milho, foi até a praça e tentou alimentar os pombos. No fim, alimentou mesmo foi uma família sem tetos que estava por ali. Mas não foi o suficiente, ela precisava de adrenalina. Já era quase noite e, depois de quebrar sua bengalinha em um buraco na calçada, se deparou com um parque de diversões aberto. Foi então que uma luz brilhou. O sonho de infância de Vovó Izilda era dar uma volta na Roda Gigante. O que poderia dar mais adrenalina que isso?! Pegou seu ultimo trocadinho e comprou uma ficha. E lá foi ela rumo ao brinquedo dos sonhos. Antes de completar a 2° volta, a roda gigante caprichosa quebrou com Vovó Izilda presa no mais alto cume; abaixo dela, assaltantes, como que teletransportados, surgiram com armas e reféns. Vovó mal acreditou na quantidade de dinheiro que estava sendo roubada daquele lugar. Como um parque de diversões tinha tudo aquilo? Porém, mantenham a calma amigos, a história não termina por aqui. De repente, e não mais que de repente, a super heroína chegou voando mais rápida que uma bala, decapitou e esquartejou os bandidos com seu machado da justiça, foi ovacionada pelos pobres mortais e sumiu; ainda, não mais que ainda, mais rápida que uma bala. Foi então que aquela musiquinha de parque de diversões sabor infância retornou aos alto falantes e tudo voltou ao normal. A roda gigante, que voltara a funcionar, deixou Vovó Izilda partir; esta, que por sua vez enjoada com todos aqueles 360°, apenas desejava morrer em paz.”
    
    - Mamãe, quer que eu leia outra história para você dormir?

Ana Esther

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