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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O Narrador

       Acorda. Levanta. Lava o rosto. Ascende um cigarro. Toma um gole de café...depois um gole de café com leite. Outro cigarro. Escova os dentes. Sai de casa depois do almoço, encontra os amigos, falam besteira, bebem juntos, fumam juntos, comem juntos. Ouvem musica. Passam mal juntos...
        Não sabe direito aonde está acordando. Olha para um lado, outro lado em seguida, tudo isso lentamente. Ressaca! Está na garagem de um amigo. O amigo está dentro do carro que não funciona – de ressaca também. Não deve fazer idéia de onde esta dormindo.
        Levanta. Ascende um cigarro. Tenta acordar o amigo. Dessa vez não tem café. Só em casa. Abre o portão...
        Poderia dizer que este sujeito sou eu, ou melhor, fui assim um dia. Hoje apenas digno de ser narrado. Digo que fui – o que já não existe mais. Do contrario não seria possível narrá-lo.  Narramos o que não existe ou o que pode vir a existir, mas se existir será difícil de narrar. Posso narrá-lo porque hoje tenho domínio sobre sua breve existência. Conheço tudo o que pensou, desejou e deixou de sentir... e posso dizer com completa certeza que tudo não passou de um breve sonho  (relato, se preferir assim). Divertido, porem um sonho. Vejo muitos iguais a ele ao meu redor ainda hoje, em todo lugar que eu vá. Imersos na vida que outras pessoas vivem por eles; sacrificando suas expectativas e seus desejos mais puros e sinceros em troca da maldade que os seus próximos esperam ver neles. É triste... mas é um relato que não tenho competência para narrar. Cada narrador deve descobrir seu próprio personagem principal e quem sabe um dia narrar algo sobre ele.
        Enfim, este sou eu; fui assim; não existe mais eu. Para muitos teóricos agora apenas Narrador.

Filipe Lemos

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